Este é o terreiro mais antigo de que se tem notícia e o que, segundo vários autores, serviu de modelo para todos os outros, de todas as nações. Um grupo dissidente do Terreiro da Casa Branca, comandado por Eugênia Anna dos Santos, fundou, em 1910, numa roça adquirida no bairro de São Gonçalo do Retiro, o Terreiro Kêtu do Axé Opô Afonjá.
O terreiro ocupa uma área de cerca de 39.000 m2. As edificações de uso religioso e habitacional do terreiro, ocupam cerca de 1/3 do total do terreno, em sua parte mais alta e plana, sendo o restante ocupado pela área de vegetação densa que constitui, nos dias de hoje, o único espaço verde das redondezas.
Por força da topografia do terreno, as edificações do Axé Opô Afonjá se distribuem mais ou menos linearmente, aproveitando as áreas mais planas da cumeada, tornando, no acesso principal, um "terreiro" aberto em torno do qual se destacam os edifícios do barracão, do templo principal - contendo os santuários de Oxalá e de Iemanjá -, da Casa de Xangô e da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos.
A organização espacial do Axé Opô Afonjá mantém as caracteríticas básicas do modelo espacial típico do terreiro jejê-nagô. Esses mesmos elementos, são também encontrados nos terreiros da Casa Branca e do Gantois, apenas com uma diferença: no Axé Opô Afonjá o barracão é uma construção independente, ao passo que nos dois outros terreiros ele está incorporado ao templo principal.
Sacerdotisas:
Nome - período que exerceu o cargo.
Mãe Aninha - 1909-1938
Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Ọbá Biyi, (Salvador, 13 de julho de 1869 — Salvador, 3 de janeiro de 1938) Iyalorixá, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e no Rio de Janeiro.Eugênia Anna Santos nasceu no dia 13 de Julho de 1869, às dez horas da manhã, na rua dos Mares 76, em Salvador, Bahia. Filha de Sérgio José dos Santos (chamado em gurunsi Aniió), brasileiro, e Leonídia Maria da Conceição Santos (chamado em gurunsi Azambrió), brasileira. Não há informação sobre os avós paternos e maternos. Seu registro de nascimento fora efetuado pela própria Eugênia Anna Santos, no cartório do sub distrito do Paço, rua do Tingui 97, CEP 40040-380, Salvador, Bahia, no dia 7 de Junho de 1937.
Foi iniciada na nação de Ketu em 1884, aproximadamente, pela iyalorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia Figueiredo, Omonikê. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, conta que depois da morte de Marcelina da Silva, Eugênia Anna Santos, fez santo Afonjá no Engenho Velho, com Tia Teófila, Bamboxê e Tio Joaquim. Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Maria Bibiana do Espírito Santo afirmou que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”.Fundou o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro em 1895 e em Salvador em 1910. Em 1936, reinaugurou o Ilê Iyá, instituiu o Corpor de Obá de Xangô (Ministros de Xangô) com Martiniano Eliseu do Bonfim, lançou a pedra fundamental no novo barracão Ilê N'Lá e fundou a Sociedade Cruz Santa, no Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador. Em 1937, participou do II Congresso Afro-Brasileiro em Salvador, a convite do escritor e etnólogo Edison Carneiro. Influenciou Getúlio Vargas, na promulgação do Decreto-Lei 1.202, no qual ficava proibido o embargo sobre o exercício da religião do candomblé no Brasil - contou com a ajuda de Oswaldo Aranha, seu filho-de-santo e chefe da Casa Civil e do Ogan Jorge Manuel da Rocha.
Começou a mostrar-se doente em junho de 1936. Seu último barco, com suas últimas filhas-de-santo, saiu no dia 13 de dezembro de 1937. No dia 3 de janeiro de 1938, às quinze horas, ela faleceu - vítima de arteriosclerose, conforme atestado apresentado por seu médico Dr.Rafael Menezes -, na casa de Iyá no Ilê Axé Opô Afonjá. Às dezenove horas, o corpo foi transportado, em carro mortuário, do Ilê Axé Opô Afonjá para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no centro histórico de Salvador, Pelourinho, onde ficou exposto até as quinze horas do dia seguinte, quando saiu o cortejo fúnebre. No dia 4 de janeiro de 1938 foi sepultada no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, com todas as formalidades de praxe do candomblé e da religião católica. Então, seguiu-se o axexê no Ilê Axé Opô Afonjá. Em 3 de Janeiro de 1945, foi realizada a obrigação de Aku (ou obrigação dos sete anos), para o espírito de Eugênia Anna Santos, o último dos compromissos da Sociedade para que a sua Iyá Obá Biyi obtivesse luzes e descanso eterno. Eugênia Anna Santos repousa num mausoléu, oferecido pela Sociedade Cruz Santa Opô Afonjá, no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, Salvador, Bahia.
Segue abaixo uma introdução das principais realizações de Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, enquanto Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Segundo Marcos Santana:
"1936 pode ser considerado o ano das grandes realizações de Obá Biyi na Roça de São Gonçalo. Após o longo período no Rio de Janeiro ela, ao retornar a Salvador, cumpre uma agenda típica de grandes políticos e estadistas. As metas do seu projeto de vida e da sua vocação fundadora se concretizam seguindo uma meta-pré-estabelecida."[14]Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - Saúde, Rio de Janeiro - RJ, 1895
Notas:
- 1886: Primeira visita de Mãe Aninha
- 1895: Mãe Aninha vem ao Rio com Bamboxê e Tio Joaquim e funda uma casa de santo no bairro da Saúde
- 1935: Mãe Aninha encarrega Mãe Agripina para cuidar do Afonjá no RJ
- 1944: localizado na rua bela em sao cristovao, Mãe Agripina transfere o Afonjá para Coelho da Rocha, São João do Meriti - RJ
Maria da Purificação Lopes, Mãe Bada de Oxalá, Olufan Deiyi[1][2], (Salvador, meados do século dezenove — 1941) Iyá kékeré[3], assumiu temporariamente os destinos do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, após o falecimento de Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Ọbá Biyi.
Mãe Bada assumiu temporariamente o dia-a-dia do Axé, após o falecimento de Mãe Aninha. Segundo relato de Mãe Stella.
Mãe Bada ajudou muitos terreiros a solidificarem-se, a exemplo do reconhecido Oxumarê, na Avenida Vasco da Gama, em Salvador, e o terreiro de Ciriaco (Manoel Ciriáco de Jesus). Neste último, no ano de 1936 iniciou na nação yorubá (nagô, ketu) o jovem Taoiá (falecido) e a menina Carmelita Luciana de Souza (Carmelita Luciana Pinto, depois do casamento), então com sete anos. Carmelita (Carmélia) também filha de Oxoguiã é conhecida por "Xagui". Mãe Xagui, quase octogenária, é a iyalorixá de terreiro sito no Pero Vaz (Salvador) fundado por sua mãe Archanja Maria de Brito (Cassutu) filha de Xangô iniciada pela gaucha Maria Nenem, a qual fora igualmente a mãe-de-santo de Ciriaco e Bernardino do tradicional terreiro angola Bate Folha.
Depois de realizadas todas as obrigações e preceitos de acordo com a liturgia da seita, e tudo regularizado dentro do Axé Opô Afonjá, Maria Bibiana do Espírito Santo - Senhora -, filha legítima de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, nascida no dia 31 de março de 1900, na Ladeira da Praça, em Salvador, ficou, como era de direito, devido à sua tradicional família da nação Ketu, com o título de Iyalaxé Opô Afonjá (mãe da força espiritual que mantém o Axé Opô Afonjá) , dirigindo os destinos do terreiro, ao lado de uma senhora filha de africanos, muito amiga de Iyá Obá Biyi, de nome Maria da Purificação Lopes, ou Badá Olufan Deiyi.
As duas puseram o Axé a funcionar, e no dia 26 de junho de 1939 deu-se a inauguração da nova casa de veneração aos mortos, construída para as obrigações da finada Aninha, junto ao cruzeiro. Fizeram a iniciação das seguintes pessoas: Honorina, filha de Ossãin; José e Hilda, ambos de Xangô; Senhorazinha e Dacruz, ambas de Oxun; e Isabel, de lansan. Três dias depois, Fortunata e Antonieta, ambas de Obaluaiyê; Dulcinha e Benzinha, ambas de lemanjá. Entrou também, mais três dias após, Stela, de Oxossi. No mesmo ano, foi feita uma casa para Ogun, e reiniciaram-se obras do novo barracão e a construção da casa de Xangô.
Passado um ano, em dezembro de 1940, Senhora, já sozinha na direção do Axé, fez a iniciação de seu primeiro iyawô, de Oxalá, chamado Fernando, filho de Agripina Souza, a lyalorixá do Axé Opô Afonjá do Rio de Janeiro, sem poder contar com o auxílio da velha Badá, que, doente, deixara à Senhora toda a responsabilidade do Axé. Badá não conseguiu recuperar a saúde, e, cerca de um ano depois, em fins de 1941, veio a falecer.”
Mãe Senhora - 1942-1967
Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, (Salvador, 31 de março de 1890 - Salvador, 22 de fevereiro de 1967) foi a terceira Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia.Maria Bibiana do Espírito Santo nasceu no dia 31 de março de 1890[1], filha de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia. Tinha uma irmã chamada Felícia do Espírito Santo.
Mãe Senhora é descendente da nobre família Asipá, originária de Oió na Nigéria e Ketu no Benim. Sua mãe, Claudiana do Espírito Santo era filha de Madalena. Madalena era filha da Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé no Brasil: o Ilê Axé Airá Intilè, ou Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador.
Foi iniciada na nação de Ketu em 4 de novembro de 1907, pela ialorixá Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, em sua casa na Ladeira da praça, no Pelourinho, centro histórico de Salvador. Mãe Aninha lhe entregou a cuia (contendo a faca, a tesoura e a navalha) no ritual de iniciação. A navalha fora de sua avó, Marcelina da Silva, Obá Tossi. A linhagem familiar é que permitiu a Mãe Senhora, ainda criança, a receber os símbolos do direito ao mais alto posto do candomblé. Mãe Aninha não queria iniciar Mãe Senhora tão jovem - pois sabia como é pesada a disciplina do sacerdócio - mas teve uma visão na qual Marcelina da Silva, Obá Tossi, ordenava-lhe o contrário. Segundo consta, os primeiros banhos rituais de Mãe Senhora, ainda menina, foram tomados no Ilê Axé Airá Intilè, em Salvador.Casou-se com Arsênio dos Santos. No dia 2 de dezembro de 1917, nasce seu filho único, Deoscóredes Maximiniano dos Santos, Mestre Didi.
Foi Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador no período de 1942 a 1967, consolidou-se uma das maiores líderes religiosas da história do Brasil.
Faleceu na madrugada do dia 22 de janeiro de 1967, na casa de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia, vítima de um súbito AVC (acidente vascular cerebral).
Mãe Ondina de Oxalá - 1969-1975
Ondina Valéria Pimentel, Mãe Ondina ou Mãezinha, Iwin Tona, (Salvador, 8 de fevereiro de 1916 - Salvador, 19 de março de 1975) foi a quarta Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia.Ondina Valéria Pimentel nasceu no dia 8 de fevereiro de 1916, filha de José Theodoro Pimentel. Nasceu no mar, a bordo de um navio da Companhia de Navegação Bahiana. Descendente dos fundadores do terreiro do Mocambo e do terreiro do Tuntum, ambos do culto aos eguns, na ilha de Itaparica.
Foi iniciada por Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Ọbá Biyi em 1921, na casa de seu pai José Theodoro Pimentel, em Itaparica, Balé Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, sucessor de Rodolfo Martins de Andrade ou Bangboshê Obitikô. Sobre a iniciação, conta Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô:
"Em 1921, Iyá Obú Biyi , Aninha, foi para a casa de José Theodório Pimentel (Balé Xangô), em Itaparica, fazer a iniciação da filha do dono da casa, Ondina Valéria Pimentel, filha de Oxalá - mais tarde, Iyá Kekerê do Axé; de Senhora, filha de Xangô; de Filhinha, de Oxun; de Túlia, de Iemanjá, e de Vivi, de Obaluaiyê. Tirou esse barco de iyawôs com a ajuda de sua irmã lesse-orixá Fortunata de Oxossi (Dagan), mãe legítima de Silvânia, filha de Airá, a Iyámorô do Axé Opô Afonjá."Em 1937, aos 21 anos de idade, foi indicada por Mãe Aninha a primeira Iyákékeré do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador.
Em 22 de janeiro de 1967, falece Mãe Senhora. Inicia-se o período de luto no Ilê Axé Opô Afonjá, um período de transição.
No dia 22 de Janeiro de 1968, pela manhã, foi celebrada na Igreja do Mosteiro de São Bento, missa para Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, oficiada por Dom Timóteo Anastácio, Abade da Igreja, com a presença de Mestre Didi, Vivaldo da Costa Lima, Jorge Amado, Carybé, Walfredo Morais, Cel. Valter Lima Santos, representando o Governador Luiz Viana Filho, Sinval Costa Lima, Waldir Oliveira, Camafeu de Oxossi, Dorival Caymmi, amigos, parentes e admiradores. Durante o ofício, Dom Timóteo Anastácio pediu a "todos os exércitos celestes e Orixás pela alma da serva Mãe Senhora". No mesmo dia, às 15 horas, após o tempo regulamentar do falecimento de Mãe Senhora, o jogo do oluô Agenor Miranda, assistido pelo Babalórisá Nezinho da Muritiba, vindo de Cachoeira para a ocasião, confirmou Ondina Valéria Pimentel ou Mãezinha como Iyalaxé do Ilê Axé Opô Afonjá. A cerimônia foi assistida por Ogãs, Obás e filhos e filhas de santo do Afonjá, Casa Branca do Engenho Velho e do Gantois. Eutrópia Maria de Castro ou Pinguinho, Oxum Funmisé, confirmou-se Iyákékeré e Mestre Didi confirmou-se Balé Xangô e assim auxiliaram Mãezinha nos destinos do Opô Afonjá. Mãezinha teve que transferir-se do Rio de Janeiro, onde residia na época, e também dirigia uma casa de candomblé, a “Cruz do Divino”, com mais de 50 filhas-de-santo, no bairro do Éden. Segundo depoimento do Sr. Mario Bastos, Obá-Telá do Ilê Axé Opô Afonjá, publicado na primeira página do Jornal da Bahia no dia 1 de Fevereiro de 1968, “não há qualquer determinação que venha a obrigar a Yalaxé Ondina a deixar, de um momento para o outro, a “casa” que possui na Guanabara, a fim de dedicar-se exclusivamente ao “Axé”, sobretudo porque a sua transferência definitiva exige a solução de uma série de problemas, não somente de ordem religiosa como, ainda, de família.”
Foi Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador no período de 1969 a 1975.
Mãe Stella de Oxóssi - 1976
Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kayode, (Salvador, 2 de maio de 1925) é a quinta Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá em Salvador, Bahia.Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kayodê, nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de Azevedo Santos.
Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha de Maria Konigbagbe, africana de etnia egbá. Aos nove anos de idade, Maria Konigbagbe estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil.Sua tia, Dona Arcanja, também conhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no Gantois e de Sobalojú no Opô Afonjá nos tempos de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por volta dos treze anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento não esperado, o que fez com que Dona Arcanja procura-se ajuda do oluô Pai Cosme de Oxum, o qual declarou que ela deveria ser iniciada e que seu caminho era de ialorixá. Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha do Gantois. Dona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia. Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de Dezembro de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora.
Mãe Stella conta:
"Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossi dagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossi dagã era o cargo que ela ocupava no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobalojú do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossi dagã reinava como ialorixá do Axé Opô Afonjá."Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orukó (nome) de Odé Kayodê. Mãe Stella conta que quando foi realizada sua iniciação, ela "não pensava em nada", "não tinha noção" do que estava acontecendo:
"É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser ialorixá. Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida iá, entendi isso... é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria."Lizete Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no Gantois para Iansã, relembra:
"Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada, com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão."Mãe Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de trinta anos.
Em 29 de junho de 1964, foi designada Kolabá por Mãe Senhora. Filha dileta de sua mãe-de-santo, pouco a pouco foi aprendendo os grandes mistérios e segredos do candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma iaô - Celenita – que era filha de Ogum.
Em 19 de março de 1976, foi escolhida para ser a quinta iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, conforme consta no livro de atas do conselho religioso do próprio terreiro, a seguir:
Transcrição da ata registrada no dia 19 de março de 1976 do livro de Atas do Conselho Religioso:Quando Mãe Stella foi escolhida ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Dona Milta explicou que não conseguia aceitar o peso da responsabilidade que caía sobre os ombros da irmã:
Aos dezenove dias do mês de março de 1976 (hum mil novecentos e setenta e seis), presentes 136 pessoas, todas com suas assinaturas gravadas no livro de Atas do Conselho Religioso deste Axé, às 10 horas e 45 minutos, no Barracão, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário da Sociedade Civil (Obá Xorun), dirigi-me a todos os presentes, solicitando que se aproximassem da mesa onde seria realizado o jogo para a escolha da futura Iyalorixá, uma vez que antes do jogo ser iniciado, o professor Agenor Miranda, Babalaô, considerado o único Oluô no Brasil, filho espiritual da falecida Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha), irmão da também falecida Ondina Valéria Pimentel, vindo do Rio de Janeiro exclusivamente para esta cerimônia, irá fazer uma dissertação do que acontecerá em seguida. Com a segurança que lhe é peculiar, e a franqueza de sempre, ele se dirigiu aos presentes nos seguintes termos: "Não estou aqui para ser agradável a quem quer que seja, sei que muitos dos presentes já fizeram sua escolha, porém eu estou aqui para cumprir a determinação de Xangô, e advirto a todos os filhos e filhas, Obás e Ogãs, e a todos vinculados a este Axé, que vontade de Xangô é Lei, é sagrada, e sua escolha, sobre quem quer que caia, terá de ser por todos acatada e respeitada, e a filha deste Axé que for por ele escolhida não deverá se deixar levar pelo coração, e deverá, sim, agir com justiça e sabedoria, promovendo a união de todos, e acima de tudo ter pulso forte para manter a hierarquia, doa em quem doer". A hierarquia, ele repetia que tinha de ser mantida acima de tudo. Sentou-se em seguida para dar início ao jogo. Ao seu lado direito estava sentada Eutrópia de Castro (lyakêkêrê), aos eu lado esquerdo o Assobá Deoscóredes dos Santos, e em volta destes, representações do Engenho Velho, Gantois, Bate-Folha, e de diversas outras Casas da Bahia e do Rio de Janeiro, e ainda os membros do Conselho Religioso. O Professor Agenor Miranda segurou os búzios e concentrou-se. Todos os presentes conservaram um silêncio absoluto, atentos ao professor. Ele deu início à leitura, e falou EJIONILÊ, recolheu os búzios e, após uma pausa, jogou-os novamente e falou ODI, e novamente usados os búzios falou OXÉ, em seguida OSSÁ, após nova concentração usou novamente os búzios e falou EJILASEBORÁ, apresentando Oxossi, em seguida falou ÔFUN trazendo ORUKÓ de ODÉ KAIODÊ; novamente o professor usou os búzios e voltaram OSSÁ e OXÊ, os Odus de Odé Kayodê, filha do Axé a quem Xangô escolhia e determinava ser a nova Iyalorixá. O professor Agenor se dirigiu aos presentes, dizendo que se ali, naquele momento, houvesse algum Oluô, ou pessoa que sabe ler nos búzios, que se aproximasse e viesse ler e constatar o que ali estava determinado por Xangô. Em seguida, como é de praxe, o Assobá partiu um OROBÔ e pediu a Xangô confirmação do que disseram os búzios, e por duas vezes seguidas a palavra foi confirmada com ALAFIÁ. O Professor Agenor procurou saber quem atendia pelo nome de Odé Kayodê, e Stela Azevedo se apresentou e foi notificada pelo Professor Agenor ser ela a escolhida por Xangô para dirigir os destinos do Axé. Dirigindo-se a mim, solicitou que eu notificasse em voz alta o que Xangô acabara de determinar. Comuniquei aos presentes que, por determinação e vontade de Xangô, fora escolhida a filha do Axé de nome Stela Azevedo - Odé Kayodê - Kolabá, para ser a Iyalorixá a partir daquele instante. Todos os presentes acolheram minhas palavras de pé e com uma salva de palmas. Em seguida, um a um, os filhos deste Axé de Opô Afonjá, os representantes das diversas casas ali presentes, os visitantes, todos, enfim, foram cumprimentar a nova Iyalaxé, que se curvava à vontade de Xangô, e como mais nada atinente ao assunto tivesse de ser registrado, encerrei a ata feita no livro de Atas do Conselho Religioso, assinando a mesma, em Salvador, 19 de março de 1976, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário (Obá Xorun), o Presidente Carybé, senhor Hector Bernabó (Otun Obá Onasokun) e os diretores presentes, Mario M. Bastos, Deoscóredes Maximiliano dos Santos.
"Corri para dona Menininha do Gantois, implorando que ela desse um jeito, mas ela, Mãe Menininha, disse: 'Isso não é comigo, isso é com os orixás, eles sabem que Stella tem força, eles a conhecem. Vi que era um poder maior e lembrei de Camões, 'Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta...' Vi que não podia fazer nada."Em 1981, Mãe Stella visitou templos e casas de orixás em Oshogbo na Nigéria. Ela cumprimentava as pessoas, era recebida por todos e, uma vez, ao entoar um canto para Oxum, à sua voz incorporaram-se outras. Houve total entendimento e todos se emocionaram. O mesmo se deu nas cidades de Ile-Ifé e Ede. Apesar das barreiras linguísticas, fez amigos e foi homenageada. Em 1983 o professor Wande Abimbola, à época reitor da Universidade de Ile-Ifé, fez questão de realizar em Salvador, na Bahia, a II Conferência da Tradição dos Orixá e Cultura, porque sabia haver em Salvador raízes profundas da cultura iorubá.
O primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de Julho de 1983, em Salvador, quando lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova Iorque, EUA.
Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.
Em 1999, Mãe Stella conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.



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